Introdução à Estatística e Análise Exploratória de Dados

Introdução

Este material cobre as Semanas 1 e 2 do plano de ensino: noções gerais sobre Estatística, alfabetização científica, população e amostra, classificação de variáveis, níveis de mensuração, coleta e representação de dados, e distribuição de frequências (histograma e boxplot).

Slides originais disponíveis AQUI.

Noções Gerais sobre Estatística

Estatística é a ciência que tem por objetivo orientar a coleta, o resumo, a apresentação, a análise e a interpretação dos dados. Em outras palavras, é a ciência que coleta, organiza, analisa e interpreta dados, apoiando a tomada de decisões em situações de incerteza. É muito utilizada em experimentos agrícolas e zootécnicos — por exemplo, na avaliação da produtividade de culturas ou do ganho de peso animal.

A Estatística se divide em duas grandes frentes:

  • Estatística descritiva: envolvida com o resumo e a apresentação dos dados; e
  • Estatística inferencial: ajuda a concluir sobre o conjunto maior de dados (população) quando apenas uma parte deste conjunto for estudada (amostra).

Alfabetização científica

Alfabetização científica é a capacidade de interpretar dados e resultados científicos: compreender gráficos, tabelas e conclusões estatísticas. Ela é fundamental para a leitura de artigos científicos em Agronomia e Zootecnia, e evita interpretações equivocadas de resultados experimentais — um problema mais comum do que se imagina, inclusive na cobertura jornalística de dados (veja, por exemplo, o vídeo disponível no Moodle sobre interpretações equivocadas de dados durante a pandemia de Covid-19, que motivou inclusive um workshop de letramento estatístico para jornalistas).

Um bom ponto de partida para pensar em alfabetização científica é entender as etapas de uma pesquisa científica e onde a Estatística entra nesse processo — tanto na metodologia da área de estudo quanto na metodologia estatística propriamente dita:

Principais etapas da pesquisa científica: definição do problema, planejamento, coleta, análise, resultados e conclusões (adaptado da Prof. Lisiane Selau)

População e Amostra

  • População: conjunto total de indivíduos ou observações de interesse que apresentam, pelo menos, uma característica em comum.
  • Amostra: subconjunto representativo (ou não) da população.

Uma boa intuição para essa distinção: “um chef de cozinha prova seu prato com uma colherada antes de servir toda a panela”. Não é preciso comer o prato inteiro para saber se o tempero está bom.

Exemplo de população: todo o rebanho bovino de uma fazenda. Exemplo de amostra: 30 animais selecionados para avaliação.

Variáveis: exemplo motivacional

Considere uma população — o rebanho total de vacas de uma fazenda — e uma característica observável \(X\) nesse rebanho (por exemplo, \(X_1\), \(X_2\), \(X_3\), …). Um exemplo concreto: estimar a proporção de vacas com a doença da vaca louca.

Rebanho bovino conduzido em uma fazenda — foto ilustrativa do exemplo motivacional de população e variável
  • População: rebanho total de vacas de uma fazenda.
  • Característica \(X\) observável: “Tem a doença da vaca louca? Sim ou não?”
  • Amostra: um subconjunto do rebanho, sobre o qual observamos \(X\).

O esquema geral é: partimos do universo do estudo (população), observamos uma parte dele através da amostragem, e usamos os dados observados (amostra) para fazer inferência sobre a população como um todo. Esse ciclo — população → amostragem → amostra → inferência → conclusão sobre a população — é a espinha dorsal de toda a Estatística Inferencial, e retornaremos a ele repetidamente ao longo da disciplina (por exemplo, nas semanas de Amostragem/Estimação e de Testes de Hipótese).

Variáveis

Variável é toda a característica que, observada em uma unidade de pesquisa/experimento, pode variar de unidade para unidade. Exemplos: peso de um animal, raça de um animal, altura de uma planta, número de ovos de uma galinha, etc.

“A existência da variabilidade justifica o estudo da ciência estatística.”

Classificação de variáveis

As variáveis podem ser classificadas em dois grandes grupos, cada um com dois subtipos:

Classificação de variáveis: qualitativas (nominais e ordinais) e quantitativas (discretas e contínuas)

Qualitativas (categóricas)

  • Nominal: não possui ordem/hierarquia. Exemplo: raça animal (Raça A, Raça B, Raça C, …).
  • Ordinal: possui ordem/ranking/escala lógica. Exemplo: estágios de crescimento (Pequeno, Médio, Grande).

Outros exemplos aplicados à Agronomia e Zootecnia:

Nominais: tipo de cultura (Soja, Milho, Cana-de-açúcar, Café, Algodão); raça de gado (Nelore, Angus, Holandesa, Jersey, Brangus); tipo de solo (Argiloso, Arenoso, Franco); sistema de produção (Intensivo, Extensivo, Orgânico, Convencional); marca de fertilizante ou defensivo agrícola.

Ordinais: intensidade de infestação de pragas (Baixa, Média, Alta); classificação da qualidade do fruto (Primeira, Segunda, Descarte); nível de maturação do fruto (Verde, Maduro, Passado); escore de condição corporal em bovinos (Magro, Ideal, Obeso); nível de severidade de uma doença como a ferrugem (Leve, Moderada, Severa).

Quantitativas (numéricas)

  • Discretas: valores inteiros contáveis. Exemplo: número de leitões por parto (1, 2, 3, …, 14, …).
  • Contínuas: valores em escala real. Exemplo: peso de animais, altura de plantas (12,4 kg, 14,85 kg, etc.).

Outros exemplos:

Discretas: número de frutos por planta; quantidade de animais por piquete; número de perfilhos por planta de trigo; quantidade de tratores na fazenda; número de ovos produzidos por galinha por dia.

Contínuas: produtividade da cultura (t/ha ou sc/ha); peso do animal (kg); índice pluviométrico (mm); teor de umidade do grão (%); temperatura ambiente no aviário (°C).

Escalas (níveis) de mensuração

Escalas de medida — também chamadas de níveis de mensuração — são importantes porque determinam quais análises estatísticas podem ser realizadas com segurança e como os dados devem ser interpretados. Existem quatro escalas distintas, organizadas hierarquicamente: à medida que se sobe de nível, aumentam tanto a complexidade quanto a informação disponível para a metodologia estatística.

As quatro escalas de medida — nominal, ordinal, intervalar e racional (de razão) — e a hierarquia de complexidade/informação entre elas (adaptado da Prof. Lisiane Selau)

Uma pergunta importante para fixar o conceito: faz sentido calcular uma média em uma base de dados em que estão codificados os números “1 – Angus” e “2 – Hereford”? E se fosse “1 – Pequeno” e “2 – Médio”? E se fosse “0 – Não” e “1 – Sim”? Em nenhum desses casos a média tem uma interpretação sensata, porque os números ali são apenas rótulos (nominal) ou indicam ordem sem distância fixa entre categorias (ordinal) — não são medidas na escala intervalar ou de razão.

Intervalar vs. razão: o que muda na prática?

A distinção entre escala intervalar e de razão costuma ser a mais sutil das quatro. A ideia central: nas duas escalas, o intervalo entre dois pontos quaisquer tem sempre o mesmo “tamanho” (16 graus de diferença entre 32°C e 16°C é a mesma coisa que entre 66°C e 50°C; 10 kg a 20 kg é a mesma diferença que 75 kg a 85 kg). A diferença é que a escala de razão tem um zero absoluto (zero significa “ausência” da grandeza), e a intervalar não.

Explicação de por que temperatura (°C) é uma escala intervalar, mas peso e distância são de razão — o zero absoluto marca a diferença

Continuação: por que “10 graus C é o dobro de 5 graus C” não faz sentido em Celsius (intervalar), mas “10 kg é o dobro de 5 kg” faz sentido em quilogramas (razão)

Por exemplo: temperatura em °C/°F é intervalar, porque você pode ter valores negativos (-20°C é um valor válido) — não existe “zero absoluto” de temperatura nessas escalas. Já o peso em kg é de razão, porque o menor valor possível é 0,00 kg, que representa de fato ausência de peso. Isso implica que “10 kg é o dobro de 5 kg” faz sentido (razão), mas “10°C é duas vezes mais quente que 5°C” não faz sentido — a comparação correta precisaria ser feita em Kelvin, que tem zero absoluto.

Na prática, quase todas as variáveis contínuas medidas em Agronomia e Zootecnia (peso, produtividade, altura, precipitação) são de razão. A escala intervalar aparece com menos frequência (temperatura em °C sendo o exemplo clássico).

Coleta e representação de dados (organização)

Tabelas

A forma mais básica de organizar dados coletados é uma tabela. É importante lembrar que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) estabelece alguns padrões mínimos para tabelas, como a presença de fonte e título.

Exemplo de tabela de dados agrícolas: ano, cultura, qualidade (variável ordinal), produção (ton) e área (ha)

Gráficos

Os principais tipos de gráfico para representar dados são: linha, série temporal, coluna, barra e setor/pizza. A escolha do tipo de gráfico depende da natureza da variável e do que se quer comunicar — evolução ao longo do tempo, comparação entre categorias, ou composição/proporção de um total.

Gráfico de linha/série temporal: produção agropecuária ao longo dos anos

Gráfico de coluna: produção média por cultura (Milho, Soja, Trigo)

Gráfico de setor (pizza): participação da produção por cultura

Para mais exemplos de representações gráficas, recomenda-se o material Representações Gráficas do site de Probabilidade e Estatística EAD da UFRGS, além dos materiais suplementares no Moodle. Dois aplicativos interativos também são recomendados: Análise Exploratória — Variáveis Quantitativas e Análise Exploratória — Variáveis Categóricas.

Distribuição de frequências: histograma e boxplot

Histograma

O histograma é a representação gráfica mais usada para visualizar a distribuição de uma variável quantitativa: os dados são agrupados em faixas (classes) e a altura de cada barra representa a frequência de observações naquela faixa.

Quando um valor está muito distante do restante dos dados — um outlier (valor extremo) — ele aparece isolado no histograma, geralmente afastado do “corpo” principal da distribuição:

Histograma com a presença de um outlier: a maior parte das observações se concentra entre 400 e 750 toneladas, mas há uma observação isolada próxima de 1500

Boxplot

Antes de discutir boxplots propriamente, vale revisar rapidamente as medidas de posição que os compõem (quartis, mediana) — assunto que será aprofundado na próxima seção (Estatística Descritiva - Medidas). O boxplot (ou diagrama de caixa) resume a distribuição de uma variável quantitativa através de cinco números: mínimo, primeiro quartil, mediana, terceiro quartil e máximo, além de sinalizar explicitamente a presença de outliers (geralmente marcados como pontos fora dos “bigodes” da caixa):

Boxplot da produção agropecuária, evidenciando um outlier (ponto vermelho) bem acima da caixa

Note como o mesmo conjunto de dados do histograma acima aparece resumido de forma mais compacta no boxplot — a caixa concentra a maior parte dos dados, e o outlier fica claramente destacado como um ponto isolado.

Para saber mais

Para mais exemplos interessantes de representações gráficas, recomenda-se acessar o material Representações Gráficas, bem como os materiais suplementares no Moodle e os aplicativos interativos EDA_quantitative e EDA_categorical.